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ELEIÇÕES 2026!

A máquina do feed: quando o mandato vira palanque pago pelo cidadão

A disputa eleitoral brasileira saiu do palanque e entrou no celular, mas seria ingenuidade tratar isso apenas como modernização da comunicação política.

Luana Esteche
Luana Esteche Jornalista
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A eleição no tempo da vitrine digital — A disputa eleitoral brasileira saiu do palanque e entrou no celular, mas seria ingenuidade tratar isso apenas como modernização da comunicação política. À luz da Justiça Eleitoral, o problema não é o uso das redes sociais em si; é o desvio de finalidade, a assimetria de meios e a captura da estrutura pública para produzir vantagem eleitoral. A Constituição protege a normalidade e a legitimidade das eleições contra a influência abusiva do poder econômico e contra o abuso no exercício de função, cargo ou emprego público. Também impõe à Administração Pública legalidade, impessoalidade, moralidade e publicidade, para impedir que o Estado seja apropriado por projetos pessoais. Quando a comunicação pública vira projeto pessoal — O abuso do poder político não depende de frase de campanha nem de pedido direto de voto. Ele pode se revelar no desenho da própria máquina: estruturas de comunicação desproporcionais, caras e permanentes, custeadas pelo orçamento público, mas orientadas à projeção de quem exerce o mandato. Assessorias robustas, fotógrafos, videomakers, social media, páginas oficiais, agendas roteirizadas e servidores mobilizados podem ser apresentados como transparência. Mas, quando a folha de pagamento dessa engrenagem se aproxima ou chega a R$ 1 milhão por ano, a pergunta jurídica é inevitável: essa despesa serve ao cidadão ou sustenta uma presença política permanente no feed? Se o destinatário real deixa de ser a sociedade e passa a ser a imagem do agente público, a comunicação institucional se desnatura. O mandato como vitrine - O problema é mais profundo do que uma postagem irregular. O mandato virou, em muitos casos, mais aquilo que se mostra do que aquilo que se faz. A política pública passa a valer menos pelo impacto concreto e mais pela capacidade de render vídeo, legenda, corte emocional e engajamento. Até os homenageados, que deveriam ocupar o centro do reconhecimento público, podem ser usados como justificativa estética para promoção do agente político. A homenagem vira cenário; a entrega administrativa vira peça de marketing; a prestação de contas vira autopromoção. É nesse ponto que a comunicação pública deixa de ser transparência e passa a funcionar como propaganda disfarçada, custeada pelo próprio cidadão. Dinheiro, algoritmo e aparência de espontaneidade — O abuso do poder econômico também ganhou nova pele. Hoje, dinheiro compra alcance, segmentação, repetição e sensação artificial de popularidade. Quem tem equipe técnica, rede de influência, verba para impulsionamento e domínio das plataformas ocupa o feed de forma permanente, muitas vezes sem parecer campanha. O eleitor acredita estar diante de apoio orgânico, mas pode estar sendo alcançado por uma operação profissional de persuasão política, planejada, financiada e distribuída com precisão. O desvio não pode virar método — Para a Justiça Eleitoral, a análise não pode se limitar ao post isolado. É preciso examinar quem produziu, quem pagou, quem se beneficiou, qual estrutura foi mobilizada e se houve confusão entre comunicação institucional, promoção pessoal e projeto eleitoral. Se o mandato se converte em vitrine financiada pelo cidadão, a disputa já começa desequilibrada antes mesmo da campanha oficial. E é aí que a máquina pública deixa de servir à democracia para servir a um projeto de poder. Leia outras notícias no Portal RSN.
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Sobre o autor

Luana Esteche

Luana Esteche

Jornalista

Luana Esteche Nunes é advogada, Procuradora geral da Câmara de vereadores de Guarapuava e Doutora em Direito pelo IDP/ Brasilia, com atuação em Direito Civil, Digital, do Consumidor e Público.