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Grupo de Carimbó Sancari. Ao fundo, iluminada, a Companhia Docas do Pará
COP30

Belém do Pará, capital do Brasil

Nesta semana, o premiê alemão, rude e desrespeitosamente, disse que os jornalistas que o acompanhavam ficaram contentes ao ir embora 'daquele lugar'

Thiago de Oliveira
Thiago de Oliveira Jornalista
6 min de leitura

Grupo de Carimbó Sancari. Ao fundo, iluminada, a Companhia Docas do Pará

Estive em Belém para cobrir as atividades do Pacto Global de Jovens pelo Clima na COP30. Lá, sem pensar muito no gancho, prometi uma coluna sobre a cidade a alguns moradores que conheci.

Nesta semana, o premiê alemão, rude e desrespeitosamente, disse que os jornalistas que o acompanhavam ficaram contentes ao ir embora "daquele lugar". Ensejo perfeito.

Lula reagiu e disse que o premiê deveria ter ido em boteco, dançado, provado a culinária paraense. Atesto, de certa forma. Porque visitei alguns botecos: do Bendita Marvada, na Senador Lemos, ao Bar da Loura, na Marquês de Herval, ao som dum bom tecnomelody. Ou porque provei o Menu Pai d’Égua (vatapá, tacacá, maniçoba, isca de dourada e pirarucu, camarão e charque) no Point do Açaí. Também porque acompanhei uma roda de carimbó ali no Boulevard da Gastronomia.

Bar da Loura costuma ser o 'rolê depois do rolê principal' de muita gente(Foto: Thiago de Oliveira/RSN)

O premiê, pouco antes da infeliz frase, para saudar o próprio país desfazendo-se de outro, dissera que os alemães vivem em um dos países mais bonitos do mundo. A isso o presidente poderia responder que das Docas ao Utinga há belezas que nenhuma Berlim sonhou. Que cruzar o Rio Guamá de barquinho durante o pôr do sol é tão pitoresco que andar de iate no Spree.

Mas isso toda a gente de Belém, especialmente a que prometi esta coluna, sabe — e poderia defender a capital bem melhor que este colunista. E sem ufanismo, pois ouvi das mesmas bocas sobre a maquiagem que a cidade sofreu nos últimos meses; a sordidez da dinastia Barbalho; a quase inexistência de saneamento básico, entre outros desafios.

Voltando da Ilha do Combu(Foto: Thiago de Oliveira/RSN)

Os paraenses e os povos da Amazônia sabem de seus percalços. E receberam de muito bom grado a gente estrangeira; delegações que, como a do premiê alemão, talvez nem pisaram no Ver-o-peso. O problema da fala do enfim nomeado Friedrich Wertz não é exatamente o conteúdo. Gostar ou não de estar em Belém, na esfera civil, tanto faz. Isso vir do chanceler da Alemanha, numa fala pública, eis o problema.

Esse discurso de desdém que muitos europeus destilam e que brasileiros compram é pura xenofobia. Como tratar a emergência climática sem estar disposto a sair do próprio conforto?

Rainha Vitória toma caxiri na maloca, diz bandeira pendurada no Museu Emílio Goeldi(Foto: Thiago de Oliveira/RSN)

Belém tem problemas. Muitos, inclusive, deixados pelo próprio processo de colonização. Vir aqui, ou melhor, ir até lá para depois voltar ao país que iniciou duas grandes guerras e dizer, subtextualmente, que ficou feliz em retornar daquele país feio e subdesenvolvido? Deixo aqui as palavras de uma amiga que fiz durante a COP: "Aqui a gente só dá uma chance. Não gostou? Não volte. Gostou? Volte mais vezes."

POR OUTRO LADO

Durante as atividades do GYCP, vi jovens franceses, colombianos e rapa nuis da Ilha de Páscoa debatendo a emergência climática engajadamente. Apesar do desafio da língua, houve integração, respeito e diversos debates que resultaram na 'Carta da Terra', documento que será entregue às máximas autoridades da COP. O futuro é de quem se importa.

Aquela bandeira ali, mais à frente, é a da Ilha de Páscoa. Sim, onde há os moais, aquelas estátuas gigantescas(Foto: Thiago de Oliveira/RSN)