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Gleisi mostrou preparo, mas a sabatina também expôs pontos frágeis, como INSS, foro privilegiado e emendas parlamentares
Cristina EstecheJornalista
4 min de leitura
Gleisi Hoffmann, candidata ao Senado (Foto: reprodução/Youtube)
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Gleisi Hoffmann fez uma sabatina calculada na RPC nesta terça (1º). A candidata ao Senado pelo PT conhecia os temas que poderiam lhe causar desgaste. Por isso, na maior parte do tempo, conseguiu conduzir as respostas sem perder o eixo. Isso é mérito político. Mas uma análise mais cuidadosa mostra que controle de discurso não é o mesmo que superar contradições.
CORRUPÇÃO
A corrupção pautou o primeiro teste. Gleisi não tentou negar o passado do PT. Defendeu investigação, julgamento e punição. Até aí, nenhuma novidade. O movimento seguinte foi mais político: lembrar que Lula venceu três eleições presidenciais e Dilma, duas. É um argumento de legitimidade eleitoral, mas não responde à questão central. Voto não absolve partido. Eleição não substitui investigação.
No caso do Banco Master, Gleisi foi mais hábil. Ao dizer que Jaques Wagner precisa explicar a participação, ela evitou a defesa automática de um aliado. A mesma lógica aplicou ao citar Lulinha. Se existem fatos a esclarecer, que sejam esclarecidos. É uma posição correta. O problema é garantir que essa régua permaneça igual quando o investigado estiver ainda mais próximo do núcleo político do PT.
INSS, O PONTO FRACO
O INSS, no entanto, foi o ponto mais vulnerável. Portanto, exigiu mais habilidade. Gleisi apresentou 2019 como marco para explicar a origem dos descontos indevidos. Citou mudanças feitas naquele período e lembrou a atuação da CGU e da Polícia Federal. Também destacou os afastamentos e a devolução dos valores.
A resposta, portanto, buscou colocar o caso dentro de uma linha do tempo mais ampla. Politicamente, foi uma forma de evitar que todo o episódio recaísse sobre o governo Lula. Ainda assim, os números e os alertas anteriores mantêm o assunto como uma questão relevante na campanha.
FORO PRIVILEGIADO
No foro privilegiado, a candidata mostrou reflexo político. Questionada por ter recorrido ao STF quando era senadora, apesar de hoje defender o fim da prerrogativa, respondeu: “Eu ia usar o quê?”. A frase funciona diante das câmeras. Também funciona para marcar uma posição. Mas não elimina a contradição.
O fato de um instrumento existir na lei não impede que o uso seja questionado por quem hoje sustenta que ele deveria deixar de existir. Mesmo assim, a resposta mostrou uma candidata que não se intimida diante de perguntas desconfortáveis.
EMENDA PIX
As emendas parlamentares produziram o trecho mais relevante da sabatina. Gleisi não renegou a criação da emenda PIX. Explicou a finalidade original, mas admitiu que o mecanismo cresceu além do razoável. Depois criticou os R$ 44 bilhões destinados às emendas. Aqui está a questão que merece mais atenção: Gleisi identificou um problema real do sistema político brasileiro, mas também ajudou a construir parte desse modelo.
E o problema das emendas não se resume ao valor. A discussão envolve transparência, fiscalização, critérios de distribuição e, principalmente, a capacidade do Estado de planejar investimentos. Quando uma parcela crescente do orçamento fica vinculada às escolhas parlamentares, o governo perde espaço para organizar investimentos de longo prazo.
Gleisi identificou esse problema e sinalizou que pretende rever esse modelo. Para uma candidata que conhece por dentro o funcionamento do Congresso, a posição ganha peso. É uma discussão que pode ir além da disputa eleitoral e chegar ao centro do debate sobre o futuro do orçamento público.
OUTROS
Nos temas propositivos, a candidata encontrou terreno mais confortável. Defendeu o fim da escala 6x1, falou sobre feminicídio, segurança nas rodovias, mudanças no Código de Trânsito e restrições à exportação de gado vivo. Foi quando Gleisi conseguiu deslocar a entrevista do passado do PT para aquilo que pretende fazer no Senado. E esse talvez seja o principal desafio da campanha: apresentar uma agenda própria sem ficar permanentemente submetida ao balanço do governo Lula.
CONDUZIU A CONVERSA
Em resumo, Gleisi teve uma atuação de quem busca voltar ao Senado não apenas pela força do partido, mas por uma pauta própria. O saldo da sabatina foi positivo. Entretanto, isso é diferente de ter sido irretocável.
Mas, por fim, Gleisi mostrou experiência, domínio dos temas e capacidade de resposta. Não tentou transformar cada pergunta em confronto. Preferiu conduzir a conversa. Para uma campanha ao Senado, essa talvez tenha sido a principal demonstração de força.
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