O Paraná amanheceu nesta quinta (24), cercado por números e pela velha tentação de transformar pesquisa eleitoral em resultado antecipado. A Neokemp/OCP News abriu o dia com Sergio Moro (PL) em 48,7%, Requião Filho (PDT) em 25,9% e Sandro Alex (PSD) em 20,8%. É um retrato que coloca Moro numericamente à frente, mas que ganha outro significado quando confrontado com levantamentos recentes de outros institutos.
O Instituto Índice, por exemplo, encontrou no início de setembro um cenário bem mais estreito: Moro com 35,3%, Sandro Alex com 30,6% e Requião Filho com 20,1%. Não é uma diferença que possa ser simplesmente varrida para debaixo do tapete. Também não autoriza a escolher qual pesquisa “vale” e qual deve ser descartada. São períodos, amostras e métodos distintos. E justamente por isso a comparação exige mais análise e menos torcida.
Talvez esse seja o ponto mais interessante desta reta final: o número sozinho impressiona; a sequência é que explica. Uma pesquisa oferece uma fotografia. Várias, observadas ao longo do tempo, ajudam a perceber movimentos. Quando os retratos divergem de forma relevante, cabe ao leitor perguntar como, quando e de que maneira cada instituto foi a campo e não simplesmente abraçar o percentual que mais combina com a preferência.
E ainda falta uma peça importante nesta quinta. A Quaest, contratada pela RPC, tem divulgação prevista depois de um capítulo incomum antes mesmo dos números chegarem ao público. O levantamento chegou a ser suspenso provisoriamente após questionamento da coligação de Sandro Alex. Na quarta (23), a desembargadora federal Cláudia Cristina Cristofani revogou a liminar, liberando a divulgação da pesquisa registrada sob o número PR-02802/2026.
E é justamente a Quaest que pode oferecer um parâmetro especialmente interessante. Na rodada divulgada em 24 de agosto, Moro tinha 37%, Requião Filho 21% e Sandro Alex 15%. Mais importante do que comparar automaticamente esse resultado com Neokemp ou Índice será observar o que aconteceu dentro da própria série da Quaest: quem avançou, quem recuou e quem permaneceu no mesmo patamar.
No fundo, esta quinta não é apenas um dia de pesquisas. É também um teste para a maneira como consumimos política. Percentuais viram manchetes em segundos, abastecem campanhas e correm pelas redes antes que metodologia e margem de erro consigam acompanhá-los. O risco é simples: transformar instrumentos de leitura da opinião pública em munição para certezas que os próprios levantamentos não oferecem.
A Neokemp abriu o dia, o Índice deixou um contraponto importante e a Quaest ainda pode acrescentar uma nova camada ao cenário. Os números merecem atenção, mas nenhum deles vota. Na reta final, talvez a leitura mais prudente seja justamente esta: pesquisa ajuda a entender o caminho; quem decide onde ele termina continua sendo o eleitor.