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TURVO

Em colégio da Terra Indígena Marrecas, ciência começa com perguntas sobre o pinhão

Estudantes do Colégio Cacique Otávio dos Santos investigam a araucária, registram conhecimentos tradicionais e desenvolvem soluções tecnológicas

Thiago de Oliveira
Thiago de Oliveira Jornalista
16 min de leitura
Foto: Thiago de Oliveira
Investigações ocorrem no Clube de Ciências Pỹn Fīfī, estabelecido em 2025

Por que há anos em que a produção de pinhão é abundante e outros em que a safra decepciona? A pergunta, aparentemente simples, mobilizou estudantes do Colégio Estadual Indígena Cacique Otávio dos Santos, na Terra Indígena Marrecas, em Turvo.

A partir de conversas com pessoas mais velhas da comunidade, a dúvida se transformou em uma investigação sobre o ciclo reprodutivo da Araucaria angustifolia, espécie conhecida como pinheiro-do-paraná. O objetivo é compreender os fatores relacionados à variação na produção de pinhão, alimento que também tem importância econômica para as famílias da Região.

A pesquisa começou em 2025, com a implantação do Clube de Ciências Maker Pỹn Fīfī pela Rede de Clubes Paraná Faz Ciência, iniciativa que integra os Novos Arranjos de Pesquisa e Inovação (NAPIs). O Portal RSN ouviu os responsáveis pelo andamento do clube.

Luan Felipe de Lima, professor do clubeFoto: Mathias Trindade

CIÊNCIA NASCE DAS PERGUNTAS DA COMUNIDADE

Sob a coordenação do professor Luan Felipe de Lima, estudantes passaram a se reunir semanalmente para investigar questões relacionadas ao território onde vivem. Em vez de partir de um problema definido fora da realidade escolar, o grupo procura identificar o que ainda precisa ser compreendido na própria comunidade.

A proposta reúne observação, levantamento de hipóteses, pesquisa bibliográfica e experimentação. Os resultados sobre a araucária ainda estão em construção, mas a investigação abriu caminho para outras frentes de trabalho. Entre elas estão o registro de conhecimentos sobre plantas medicinais, a preservação de narrativas orais Kaingang e o estudo da astronomia indígena.

O trabalho ocorre com apoio da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), que articula 30 clubes de ciências, sendo que cinco deles são makers - abordagem orientada para a resolução de problemas.

Colégio recebe visita da equipe da UnicentroFoto: Thiago de Oliveira

CONHECIMENTO ANCESTRAL

Uma das frentes do Pỹn Fīfī (cobra-coral, em português), surgiu a partir do interesse de uma ex-estudante, Elisângela, pelos usos tradicionais de plantas medicinais. A proposta inicial evoluiu para uma investigação mais ampla sobre os conhecimentos transmitidos oralmente na comunidade.

O grupo passou a registrar histórias, mitos e relatos relacionados à trajetória da Terra Indígena Marrecas. A intenção é contribuir para a preservação de conhecimentos que circulam entre gerações e que nem sempre estão reunidos em materiais escritos.

Durante a investigação, os estudantes descobriram que já existia um livro sobre a medicina tradicional Kaingang. Em vez de abandonar a proposta, buscaram outras formas de documentar e compartilhar o que estavam aprendendo. A produção de vídeos e a organização dos registros em um canal passaram a integrar o trabalho.

A escolha dos formatos também considera as características da tradição oral. Para Luan, os recursos tecnológicos podem ampliar as possibilidades de transmissão dos conhecimentos sem restringi-los à palavra escrita.

A estudante Edineia Fajegtahn, que começou a participar do clube há pouco tempo, ainda não escolheu uma atividade preferida. Questionada sobre o que mais gosta de fazer, respondeu em Kaingang: “Inh mỹ nén kar tóg há tĩ”. Elisângela Glicério, que integrou o grupo anteriormente, traduz: "eu gosto de tudo". A veterana, por sua vez, destaca a pesquisa sobre as pinhas da araucária entre as experiências de que mais gostava.

À esquerda, Edineia; à direita, ElisângelaFoto: Mathias Trindade

A participação de estudantes em diferentes momentos da formação escolar também dá ao clube uma dinâmica própria. Embora o trabalho tenha como referência o Ensino Médio, Luan explica que o envolvimento varia conforme os projetos e o interesse despertado pelas atividades. Em alguns encontros, o grupo ultrapassa os 20 participantes, incluindo crianças que demonstram curiosidade pelo que está sendo desenvolvido.

TECNOLOGIA PARA RESPONDER PROBLEMAS REAIS

O caráter maker do clube aparece justamente na passagem da investigação para a prática. Modelagem e impressão 3D, uso de drone, produção audiovisual e outras ferramentas tecnológicas entram no processo de pesquisa, permitindo que estudantes experimentem possibilidades, identifiquem dificuldades e busquem soluções.

Para Luan, entretanto, a dimensão tecnológica do Pỹn Fīfī não começa com computadores ou equipamentos digitais. Ela também está presente em conhecimentos tradicionais utilizados para resolver problemas concretos, como a construção de armadilhas para capturar animais ou a elaboração de estruturas para a pesca. “A gente consegue aproximar a tecnologia da função ancestral dela, que é a tecnologia como forma de resolver problemas”.

A relação entre esses conhecimentos e as práticas contemporâneas é um dos princípios que orientam o trabalho. Na avaliação de Luan, o conhecimento indígena já incorpora formas de observação, experimentação e aplicação prática que dialogam com a proposta de um clube maker.

Luan e alunos apresentam o projeto na 1ª Feira Itinerante das Escolas do NRE de Guarapuava (Fieg), em 2025Foto: Thiago de Oliveira

A diferença está, muitas vezes, na maneira de descrever e sistematizar o que se faz. Ao investigar o funcionamento de uma estrutura tradicional, por exemplo, é possível compreender os princípios físicos envolvidos e experimentar outras aplicações. Assim, os estudantes podem reconhecer conhecimentos presentes na própria cultura e relacioná-los a conceitos científicos.

Essa perspectiva também orienta a reflexão do professor sobre o uso cotidiano da tecnologia. Luan não considera os recursos digitais bons ou ruins por natureza. A preocupação está nos objetivos que orientam o desenvolvimento e a utilização dessas ferramentas, especialmente quando modelos comerciais incentivam o uso excessivo de jogos on-line e plataformas de apostas.

Fachada do Colégio Estadual Cacique Otávio dos SantosFoto: Thiago de Oliveira

No clube, a proposta é apresentar outras possibilidades. Em vez de utilizar o computador apenas para consumir conteúdo, os estudantes podem produzir vídeos, organizar informações, desenvolver modelos e investigar problemas.

Uma das demandas identificadas pelo grupo está diretamente ligada à coleta de pinhão. Segundo Luan, a retirada das pinhas pode exigir que as pessoas subam nas araucárias, o que representa risco de acidentes. O professor relata o caso de um morador da comunidade que morreu após cair de um pinheiro.

Diante disso, o clube pretende estudar uma maneira mais segura de retirar as pinhas sem exigir que alguém suba na árvore. A ideia envolve pensar em um mecanismo que possa ser acionado a distância, aproveitando conhecimentos de mecânica e recursos disponíveis para a prototipagem. A solução ainda precisa ser desenvolvida e testada.

Trabalho de observação realizado no colégioFoto: Reprodução/Rede de Clubes Paraná Faz Ciência

DA ESCOLA DE MARRECAS A BRASÍLIA

O trabalho desenvolvido no território também levou o Pỹn Fīfī a espaços de intercâmbio científico fora do Paraná. Entre os dias 24 e 26 de março, os estudantes Adair Kãvigmc Luiz e Wesley Krynhkryj Mathias viajaram a Brasília para participar do Encontro Nacional Mais Ciência na Escola, acompanhados por Luan e pela liderança indígena Claudinei Pranch.

O clube foi um dos quatro projetos da Rede de Clubes Paraná Faz Ciência Maker selecionados para participar do encontro. A seleção ocorreu a partir do envio de um vídeo de cinco a sete minutos, no qual os participantes apresentaram os temas investigados e as atividades práticas desenvolvidas pelos estudantes.

Estudantes indígenas em BrasíliaFoto: Reprodução/Rede de Clubes Paraná Faz Ciência

Na programação, os representantes de Marrecas tiveram contato com grupos de diferentes estados, além de participar de discussões sobre políticas públicas, ciência na educação básica e desafios enfrentados por iniciativas de iniciação científica.

Para Luan, a experiência teve um significado que ultrapassa a apresentação das pesquisas. “Meus alunos são bem tímidos e não possuem o português como primeira língua, então essas interações são ótimas para desenvolver essa característica de socialização e valorização do que possuem de diferente”.

O professor conta que os estudantes voltaram interessados em participar de outras viagens e conhecer novos espaços de troca. A experiência também permitiu apresentar a outras equipes o trabalho desenvolvido em uma escola indígena, com investigações que relacionam ciência, território e conhecimentos Kaingang.

APROXIMAÇÃO COM A UNIVERSIDADE

A articulação com a Unicentro é parte importante desse processo. Na área de abrangência da universidade, cinco clubes integram a Rede de Clubes Paraná Faz Ciência Maker. O acompanhamento permite que os professores responsáveis pelas atividades nas escolas contem com orientação pedagógica e mantenham contato com o ambiente universitário.

No Pỹn Fīfī, esse trabalho é desenvolvido de forma colaborativa por Luan e Erica Lima, bióloga, integrante da equipe de clubes de ciências da Unicentro e orientadora pedagógica do projeto. Adriano Machado, diretor de Acordos de Cooperação e Mobilidade Internacional da universidade, é o supervisor do clube.

Reunião de orientação e alinhamento entre Erica e Luan

Erica explica que a orientação acompanha os estudantes desde a identificação de um problema até o desenvolvimento e a apresentação das pesquisas. O trabalho envolve a organização das ideias, a busca por referências, a formulação de hipóteses e a avaliação de possíveis soluções.

“Meu papel é auxiliar esse processo, orientar as pesquisas, e auxiliar na organização das ideias, sem tirar dos estudantes sua autonomia.”

Para a bióloga, um dos aspectos mais relevantes é a capacidade de relacionar conhecimentos científicos a questões sociais e ambientais presentes na realidade dos estudantes.

"Além dos resultados alcançados, considero muito importante todo o processo de aprendizagem, a colaboração entre os integrantes e o desenvolvimento do pensamento crítico."

A professora Dr.ª Marquiana de Freitas Vilas Boas Gomes, articuladora institucional da Rede de Clubes na Unicentro, também destaca a particularidade do trabalho desenvolvido em Marrecas. Segundo ela, o Pỹn Fīfī chama a atenção pela investigação sobre o manejo da araucária e pela integração entre ciência e questões étnicas, a exemplo dos estudos de astronomia indígena.

"Os povos originários também têm muito a ensinar, e a Escola do Campo Indígena Cacique Otavio dos Santos, por meio do Clube Maker, pode contribuir para incentivar crianças e jovens a conhecerem a carreira científica e, ao mesmo tempo, a produzirem conhecimentos que reafirmem a importância dos povos originários para a conservação ambiental do território."