Por que há anos em que a produção de pinhão é abundante e outros em que a safra decepciona? A pergunta, aparentemente simples, mobilizou estudantes do Colégio Estadual Indígena Cacique Otávio dos Santos, na Terra Indígena Marrecas, em Turvo.
A partir de conversas com pessoas mais velhas da comunidade, a dúvida se transformou em uma investigação sobre o ciclo reprodutivo da Araucaria angustifolia, espécie conhecida como pinheiro-do-paraná. O objetivo é compreender os fatores relacionados à variação na produção de pinhão, alimento que também tem importância econômica para as famílias da Região.
A pesquisa começou em 2025, com a implantação do Clube de Ciências Maker Pỹn Fīfī pela Rede de Clubes Paraná Faz Ciência, iniciativa que integra os Novos Arranjos de Pesquisa e Inovação (NAPIs). O Portal RSN ouviu os responsáveis pelo andamento do clube.

CIÊNCIA NASCE DAS PERGUNTAS DA COMUNIDADE
Sob a coordenação do professor Luan Felipe de Lima, estudantes passaram a se reunir semanalmente para investigar questões relacionadas ao território onde vivem. Em vez de partir de um problema definido fora da realidade escolar, o grupo procura identificar o que ainda precisa ser compreendido na própria comunidade.
A proposta reúne observação, levantamento de hipóteses, pesquisa bibliográfica e experimentação. Os resultados sobre a araucária ainda estão em construção, mas a investigação abriu caminho para outras frentes de trabalho. Entre elas estão o registro de conhecimentos sobre plantas medicinais, a preservação de narrativas orais Kaingang e o estudo da astronomia indígena.
O trabalho ocorre com apoio da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), que articula 30 clubes de ciências, sendo que cinco deles são makers - abordagem orientada para a resolução de problemas.

CONHECIMENTO ANCESTRAL
Uma das frentes do Pỹn Fīfī (cobra-coral, em português), surgiu a partir do interesse de uma ex-estudante, Elisângela, pelos usos tradicionais de plantas medicinais. A proposta inicial evoluiu para uma investigação mais ampla sobre os conhecimentos transmitidos oralmente na comunidade.
O grupo passou a registrar histórias, mitos e relatos relacionados à trajetória da Terra Indígena Marrecas. A intenção é contribuir para a preservação de conhecimentos que circulam entre gerações e que nem sempre estão reunidos em materiais escritos.
Durante a investigação, os estudantes descobriram que já existia um livro sobre a medicina tradicional Kaingang. Em vez de abandonar a proposta, buscaram outras formas de documentar e compartilhar o que estavam aprendendo. A produção de vídeos e a organização dos registros em um canal passaram a integrar o trabalho.
A escolha dos formatos também considera as características da tradição oral. Para Luan, os recursos tecnológicos podem ampliar as possibilidades de transmissão dos conhecimentos sem restringi-los à palavra escrita.
A estudante Edineia Fajegtahn, que começou a participar do clube há pouco tempo, ainda não escolheu uma atividade preferida. Questionada sobre o que mais gosta de fazer, respondeu em Kaingang: “Inh mỹ nén kar tóg há tĩ”. Elisângela Glicério, que integrou o grupo anteriormente, traduz: "eu gosto de tudo". A veterana, por sua vez, destaca a pesquisa sobre as pinhas da araucária entre as experiências de que mais gostava.

A participação de estudantes em diferentes momentos da formação escolar também dá ao clube uma dinâmica própria. Embora o trabalho tenha como referência o Ensino Médio, Luan explica que o envolvimento varia conforme os projetos e o interesse despertado pelas atividades. Em alguns encontros, o grupo ultrapassa os 20 participantes, incluindo crianças que demonstram curiosidade pelo que está sendo desenvolvido.
TECNOLOGIA PARA RESPONDER PROBLEMAS REAIS
O caráter maker do clube aparece justamente na passagem da investigação para a prática. Modelagem e impressão 3D, uso de drone, produção audiovisual e outras ferramentas tecnológicas entram no processo de pesquisa, permitindo que estudantes experimentem possibilidades, identifiquem dificuldades e busquem soluções.
Para Luan, entretanto, a dimensão tecnológica do Pỹn Fīfī não começa com computadores ou equipamentos digitais. Ela também está presente em conhecimentos tradicionais utilizados para resolver problemas concretos, como a construção de armadilhas para capturar animais ou a elaboração de estruturas para a pesca. “A gente consegue aproximar a tecnologia da função ancestral dela, que é a tecnologia como forma de resolver problemas”.
A relação entre esses conhecimentos e as práticas contemporâneas é um dos princípios que orientam o trabalho. Na avaliação de Luan, o conhecimento indígena já incorpora formas de observação, experimentação e aplicação prática que dialogam com a proposta de um clube maker.

A diferença está, muitas vezes, na maneira de descrever e sistematizar o que se faz. Ao investigar o funcionamento de uma estrutura tradicional, por exemplo, é possível compreender os princípios físicos envolvidos e experimentar outras aplicações. Assim, os estudantes podem reconhecer conhecimentos presentes na própria cultura e relacioná-los a conceitos científicos.
Essa perspectiva também orienta a reflexão do professor sobre o uso cotidiano da tecnologia. Luan não considera os recursos digitais bons ou ruins por natureza. A preocupação está nos objetivos que orientam o desenvolvimento e a utilização dessas ferramentas, especialmente quando modelos comerciais incentivam o uso excessivo de jogos on-line e plataformas de apostas.

No clube, a proposta é apresentar outras possibilidades. Em vez de utilizar o computador apenas para consumir conteúdo, os estudantes podem produzir vídeos, organizar informações, desenvolver modelos e investigar problemas.
Uma das demandas identificadas pelo grupo está diretamente ligada à coleta de pinhão. Segundo Luan, a retirada das pinhas pode exigir que as pessoas subam nas araucárias, o que representa risco de acidentes. O professor relata o caso de um morador da comunidade que morreu após cair de um pinheiro.
Diante disso, o clube pretende estudar uma maneira mais segura de retirar as pinhas sem exigir que alguém suba na árvore. A ideia envolve pensar em um mecanismo que possa ser acionado a distância, aproveitando conhecimentos de mecânica e recursos disponíveis para a prototipagem. A solução ainda precisa ser desenvolvida e testada.

DA ESCOLA DE MARRECAS A BRASÍLIA
O trabalho desenvolvido no território também levou o Pỹn Fīfī a espaços de intercâmbio científico fora do Paraná. Entre os dias 24 e 26 de março, os estudantes Adair Kãvigmc Luiz e Wesley Krynhkryj Mathias viajaram a Brasília para participar do Encontro Nacional Mais Ciência na Escola, acompanhados por Luan e pela liderança indígena Claudinei Pranch.
O clube foi um dos quatro projetos da Rede de Clubes Paraná Faz Ciência Maker selecionados para participar do encontro. A seleção ocorreu a partir do envio de um vídeo de cinco a sete minutos, no qual os participantes apresentaram os temas investigados e as atividades práticas desenvolvidas pelos estudantes.

Na programação, os representantes de Marrecas tiveram contato com grupos de diferentes estados, além de participar de discussões sobre políticas públicas, ciência na educação básica e desafios enfrentados por iniciativas de iniciação científica.
Para Luan, a experiência teve um significado que ultrapassa a apresentação das pesquisas. “Meus alunos são bem tímidos e não possuem o português como primeira língua, então essas interações são ótimas para desenvolver essa característica de socialização e valorização do que possuem de diferente”.
O professor conta que os estudantes voltaram interessados em participar de outras viagens e conhecer novos espaços de troca. A experiência também permitiu apresentar a outras equipes o trabalho desenvolvido em uma escola indígena, com investigações que relacionam ciência, território e conhecimentos Kaingang.
APROXIMAÇÃO COM A UNIVERSIDADE
A articulação com a Unicentro é parte importante desse processo. Na área de abrangência da universidade, cinco clubes integram a Rede de Clubes Paraná Faz Ciência Maker. O acompanhamento permite que os professores responsáveis pelas atividades nas escolas contem com orientação pedagógica e mantenham contato com o ambiente universitário.
No Pỹn Fīfī, esse trabalho é desenvolvido de forma colaborativa por Luan e Erica Lima, bióloga, integrante da equipe de clubes de ciências da Unicentro e orientadora pedagógica do projeto. Adriano Machado, diretor de Acordos de Cooperação e Mobilidade Internacional da universidade, é o supervisor do clube.

Erica explica que a orientação acompanha os estudantes desde a identificação de um problema até o desenvolvimento e a apresentação das pesquisas. O trabalho envolve a organização das ideias, a busca por referências, a formulação de hipóteses e a avaliação de possíveis soluções.
“Meu papel é auxiliar esse processo, orientar as pesquisas, e auxiliar na organização das ideias, sem tirar dos estudantes sua autonomia.”
Para a bióloga, um dos aspectos mais relevantes é a capacidade de relacionar conhecimentos científicos a questões sociais e ambientais presentes na realidade dos estudantes.
"Além dos resultados alcançados, considero muito importante todo o processo de aprendizagem, a colaboração entre os integrantes e o desenvolvimento do pensamento crítico."
A professora Dr.ª Marquiana de Freitas Vilas Boas Gomes, articuladora institucional da Rede de Clubes na Unicentro, também destaca a particularidade do trabalho desenvolvido em Marrecas. Segundo ela, o Pỹn Fīfī chama a atenção pela investigação sobre o manejo da araucária e pela integração entre ciência e questões étnicas, a exemplo dos estudos de astronomia indígena.
"Os povos originários também têm muito a ensinar, e a Escola do Campo Indígena Cacique Otavio dos Santos, por meio do Clube Maker, pode contribuir para incentivar crianças e jovens a conhecerem a carreira científica e, ao mesmo tempo, a produzirem conhecimentos que reafirmem a importância dos povos originários para a conservação ambiental do território."