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POLÍTICA

O poder sob pressão!

Crise no Paraguai, articulação para criar o Ministério da Segurança no Brasil e início da transição no Paraná revelam três dimensões em disputa

Cristina Esteche
Cristina Esteche Jornalista
7 min de leitura
Lula, Santiago Peña e Moro
Lula, Santiago Peña e Moro

A política sul-americana entra em uma fase na qual a estabilidade institucional passa a depender menos da força eleitoral e mais da capacidade dos governos de administrar riscos. A crise presidencial no Paraguai, a articulação para criar o Ministério da Segurança Pública no Brasil e o início da transição no Paraná revelam três dimensões dessa disputa: controle financeiro, autoridade estatal e reorganização do poder. Em comum, a fragilidade das instituições diante de crises que ultrapassam os limites da política tradicional.

No Paraguai, Santiago Peña enfrenta um processo de impeachment após a crise do Ueno Bank, instituição com a qual manteve vínculos empresariais. A renúncia, apresentada nessa quinta (5), não encerrou a disputa no Congresso. O julgamento político envolve também a possibilidade de preservar ou perder prerrogativas parlamentares. Mais do que a permanência de Peña, está em discussão a capacidade de fiscalização do sistema financeiro e a independência dos órgãos reguladores.

O impacto brasileiro pode ser mais significativo do que aparenta. O Paraguai integra uma área estratégica para o comércio, a logística e a circulação financeira do Paraná. Uma crise de confiança no sistema bancário paraguaio pode atingir fluxos comerciais e ampliar a procura por mecanismos financeiros informais. A questão central, portanto, não é apenas diplomática. A instabilidade financeira de um país de fronteira também representa um risco econômico e de segurança para o Brasil, especialmente quando a rastreabilidade do dinheiro é um dos principais desafios no enfrentamento ao crime organizado.

Em Brasília, Lula aposta na criação do Ministério da Segurança Pública para reorganizar a atuação federal após a aprovação da PEC da Segurança pelo Senado. Politicamente, a iniciativa representa uma tentativa de recuperar protagonismo numa agenda em que a direita consolidou forte presença eleitoral. Administrativamente, porém, o desafio é outro: garantir orçamento, integração de inteligência e coordenação federativa. Sem instrumentos efetivos de investigação financeira e cooperação com os estados, a nova pasta corre o risco de ampliar a estrutura do governo sem alterar a capacidade operacional de enfrentamento às organizações criminosas.

Há uma leitura eleitoral importante nessa decisão. Ao assumir a segurança como eixo estratégico, Lula procura disputar um tema que influencia diretamente a percepção de eficiência dos governos. Mas a medida também cria uma cobrança objetiva: a União passará a ser politicamente responsabilizada por resultados que dependem de competências compartilhadas. O novo ministério pode ampliar o poder de coordenação de Brasília, mas também concentrar sobre o Planalto o desgaste de uma crise que nenhum governo consegue resolver isoladamente. É uma aposta institucional com consequências eleitorais.

No Paraná, o início da transição entre Ratinho Junior e Sergio Moro acrescenta outro elemento à equação. Moro terá a oportunidade de converter o capital político associado à segurança e ao combate à corrupção em resultados de gestão. A relação com o governo Lula será um dos primeiros testes. A posição geográfica do Paraná, especialmente a conexão com o Paraguai, exige cooperação federal em inteligência, fiscalização de fronteiras e combate à lavagem de dinheiro. A questão é saber se prevalecerá a racionalidade administrativa ou a conveniência da polarização. Moro poderá encontrar na segurança pública tanto o principal ativo político quanto a maior exposição ao desgaste.

Os três movimentos apontam para uma mudança no centro da disputa política: a capacidade de controlar riscos econômicos, financeiros e territoriais passa a ser tão relevante quanto a construção de maiorias eleitorais. No Paraguai, a crise testa a autonomia institucional; em Brasília, Lula amplia a responsabilidade sobre a segurança; no Paraná, Moro assume a expectativa de transformar autoridade política em eficiência administrativa.

O paradoxo é que todos procuram ampliar ou preservar poder justamente quando cresce a cobrança por limites, fiscalização e resultados. A próxima disputa não será apenas por quem governa, mas por quem consegue demonstrar que o Estado ainda tem capacidade de governar.

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