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Não existe lugar mais bizarro do que uma prisão desativada. O ar é pesado, as paredes ecoam histórias que não foram contadas
Cristina EstecheJornalista
4 min de leitura
Alcatraz (Foto: Cristina Esteche/RSN)
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Não existe lugar mais bizarro para se visitar do que uma prisão desativada. O ar é pesado, as paredes ecoam histórias não contadas e a umidade gruda na pele. Visitar a ilha de Alcatraz, na baía de San Francisco, na Califórnia, é uma experiência única. Caminhar pelos corredores da prisão mais famosa do mundo é sentir o frio que os presos sentiam, um frio que não é apenas do vento que entra pelas pequenas janelas, mas da alma.
O que mais me impressionou em Alcatraz foi a solidão. A ilha era o fim da linha para os criminosos mais perigosos dos Estados Unidos. Uma prisão perpétua. Ali, a proximidade com a cidade de San Francisco, tão vívida e cheia de luzes, era a maior tortura. Eles podiam ver, ouvir, mas jamais tocar. Era o tipo de contraste que te faz pensar em como a liberdade é valiosa. Ouvi o depoimento gravado de um dos presos. E ele diz que a maior tortura eram as festas de Ano Novo, com luzes, festas, brindes e, principalmente, famílias.
[caption id="attachment_322179" align="aligncenter"]Alcapone (Foto: Cristina Esteche/RSN)Alcapone (Foto: Cristina Esteche/RSN) Al Capone (Foto: Cristina Esteche/RSN)[/caption]
Alcatraz era o lar de lendas do crime, como Al Capone, o mafioso de Chicago, e George "Machine Gun" Kelly, um dos sequestradores mais famosos da década de 1930. A história deles foi contada, romantizada em filmes e livros. Eles eram criminosos, mas também eram 'famosos'. A prisão era um palco para figuras que se tornaram símbolos daquele tempo sombrio.
[caption id="attachment_322175" align="aligncenter"]Leon 'Whitey' (Foto: Cristina Esteche/RSN)Leon 'Whitey' (Foto: Cristina Esteche/RSN) Leon 'Whitey' (Foto: Cristina Esteche/RSN)[/caption]
UMA REFLEXÃO
Essa visita me fez refletir sobre a história de outras cadeias, inclusive as que conhecemos de perto. Em Guarapuava, a Cadeia Pública não é um fantasma de concreto, mas uma realidade que continua a operar. O prédio no centro da cidade, diferentemente da extinta Alcatraz, está em plena atividade. E o que mais impressiona não é o silêncio, mas o murmúrio constante de um local onde as pessoas são 'empilhadas' umas sobre as outras.
[caption id="attachment_322176" align="alignnone"]Uma cela para cada preso (Foto: Cristina Esteche/RSN)Uma cela para cada preso (Foto: Cristina Esteche/RSN)Uma cela para cada preso (Foto: Cristina Esteche/RSN) Uma cela para cada preso (Foto: Cristina Esteche/RSN)[/caption]
A diferença entre as duas prisões é gritante. Enquanto a lendária Alcatraz abrigava criminosos que se tornaram notórios, a realidade da cadeia de Guarapuava, e de tantas outras no Brasil, é o oposto. Ali, as celas estão cheias de pessoas anônimas, os invisíveis de nossa sociedade. As histórias de cada um são raramente contadas, e as vozes, abafadas pela superlotação e pela falta de dignidade. A cadeia de Guarapuava não tem figuras cinematográficas, mas tem a realidade crua da degradação humana, uma tortura diária que contrasta com o passado glamouroso da prisão americana.
[caption id="attachment_322173" align="aligncenter"]Pátio em Alcatraz (Foto: Cristina Esteche/RSN)Pátio em Alcatraz (Foto: Cristina Esteche/RSN) Pátio em Alcatraz (Foto: Cristina Esteche/RSN)[/caption]
A analogia, então, se torna inevitável. Ambas guardam em suas paredes a memória de pessoas que perderam a liberdade. Em Alcatraz, a umidade e o bolor são a prova do tempo e do isolamento. Em Guarapuava, a degradação humana e a superlotação são uma realidade dolorosa, uma história que ainda está sendo escrita.
São lugares que nos lembram de um passado sombrio, mas também nos fazem valorizar o presente. O contraste entre uma prisão histórica desativada e outra que opera em condições precárias serve como um lembrete do valor da liberdade e da necessidade de dignidade para todos.
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